CRÔNICA DE UMA VIAGEM
ANDRÉ LEAHY
Confesso que saí de Salvador, sem muita certeza do que estaríamos fazendo, sem a noção exata do que estaríamos por vivenciar.
Confiava, claro, nas impressões de Mario, meu parceiro e novo amigo. Haviam também as palavras de Newtinho, como ele mesmo disse, meu irmão de outra vida, mas me faltava a certeza...
Paguei pra ver, então.
E vi.
Em princípio, vi uma estrutura de competição de fazer inveja a qualquer outra do mundo, especialmente nas categorias de base. Vi também uma estrutura de cidade, de campos, de fazer inveja a qualquer CT do Brasil... Vi por fim a magnitude de um evento que conta nada menos do que todos os grandes times da Europa ( Ajax, Real Madrid, Barcelona, Hamburgo, Espanyol, Arsenal ...), Ásia ( Kashima Reysol ) e uma gama de seleções nacionais ( Brasil, México... ).
O nosso orgulho inicial de representarmos junto com a seleção brasileira o futebol nacional crescia, então dentro de cada um de nós com a simples comparação com as outras agremiações participantes da competição.
Quando cheguei a Espanha, não vi o 1º jogo do nosso time. As notícias eram de que foi um jogo duro, parelho, e que o empate foi um resultado justo.
Tínhamos mais dois jogos na fase classificatória.
Assisti ao primeiro dos jogos remanescentes e confesso, fiquei bastante decepcionado. Em campo, um time apático, desorganizado e que nem mesmo a técnica conseguiu nos salvar. O empate aí, foi um grande resultado.
No último jogo, em Calonge, cidade distante uns 40 minutos da "nossa" sede, LLoret de Mar, nem o cansaço ( jogamos 2 vezes no mesmo dia ), nem o frio ( a mais baixa sensação térmica da viagem ) e nem o bom time adversário ( que chegou às quartas de final ) nos impediram de ver um time diferente. Parecia que começava a germinar naquele grupo a semnte da raça, da gana, da vontade de vencer tão proclamada em nossos hinos e tão defendida nas preleções.
Perdemos. Mas de cabeça erguida.
Voltamos para o hotel com aquela sensação amarga da derrota e, pior, de que poderíamos ter ido além. Tínhamos futebol para isso. A desastrosa apresentação da manhã daquele dia nos tirava, até aí, prematuramente da competição.
No ônibus de volta, apesar da tristeza, passamos a racionalizar os resultados e ver que, ainda que remota, tínhamos uma chance ( mínima ) de seguir na competição. Para isso, as duas outras equipes do grupo, que se enfrentavam, teriam que empatar. Mais do que isso ( como se já fosse fácil ) teriam que empatar sem gols.
Além da torcida, começaram as promessas, meio sem acreditar, meio sem certeza de que seria possível. Apesar disso, vi florescer naqueles meninos uma motivação e alegria que até então não tínhamos visto.
Chegamos ao hotel desclassificados. Coube a mim, enquanto toda a delegação ainda desembarcava, verificar os resultados e trazer a boa-nova. Os outros dois times empataram de 0x0.
Estávamos classificados !!!
Parece que o cara lá de cima tinha planos para aquele grupo ousado e guerreiro.
A alegria, a festa, o choro, foram incontidos e são hoje, inesquecíveis. Nos juntamos aos meninos gritando, chorando, rezando e sorrindo, numa cena que só quem viveu é capaz de entender.
E que jamais será esquecida por nenhum de nós
Na nossa frente, nas oitavas, duas pedreiras. Uma delas, o vice-campeão de 2007 ( só perdeu para a seleção brasileira nos penaltys ) o Espanyol ( a melhor divisão de base da Espanha ) o segundo clube mais popular da Catalunya.
E muito bom.
Eles passearam no 1º jogo, brincaram e mesmo assim enfiaram 6x0 no bom time do Vila Franca. Eram realmente gigantes no tamanho físico e no futebol ( assistimos a partida e ficamos fascinados ).
Enfrentamos no começo da tarde este mesmo Vila Franca. Como tínham perdido o jogo da manhã, era tudo ou nada para eles. Foi o nosso melhor jogo, até então. Com raça e dedicação atacamos, pressionamos o tempo todo, perdemos vários gols, colocamos 2 bolas na trave, mas não saímos do empate de 0x0.
Nos restava, para a classificação às quartas de final, ganhar do temido Espanyol. Parecia uma luta de Davi e Golias e não preciso dizer quem era o gigante.
Chegamos ao estádio numa tarde/noite fria na cidade de San Cristina D`Aro.
Torcida ? Sim. Toda contra, além do diretor da Mic08.
Quer dizer, restávamos nós, pais dirigentes e amigos do lado de fora. E as famílias que deixamos aqui no Brasil.
A preleção nesse dia foi mágica, assim me definiu meu irmão, que assistiu. Minha ansiedade e nervosismo não permitiram estar presente no vestiário. Segundo ele, Mario fêz a perfeita leitura do time adversário e marcou todos os pontos possíveis.
Fomos pro jogo.
E esse, posso lhes garantir, foi um jogo para nunca ser esquecido e certamente não será.
No 1º tempo, apesar da força defensiva e da vontade dos meninos, numa bobeira da zaga o Espanyol abriu o placar.
Ao contráriuo de se desesperarem, os atletas puseram a cabeça no lugar, a bola no chão e o coração no bico da chuteira.
Empatamos o jogo no começo do 2º tempo. Tivemos chance de virar, mas o mais importante é que vimos um Espanyol ( que não se enganem , é um timaço ) acuado, com medo de jogar, tocando bola para gastar o tempo, fazendo cêra.
Eles viram em campo, o que eu, da arquibancada, também vi: não perderíamos aquele jogo pra ninguém, nem por decreto. O tamanho daqueles meninos aumentou à medida que o jogo passava, e eles estavam em todo lugar do campo, em todos os cantos dividindo todas as bolas e ganhando a esmagadora maioria.
Foi lindo ver aquele time com tamanha fibra, vibrando, aqueles meninos crescendo e amadurecendo ali, na nossa frente, a olhos vistos.
Não nos intimidamos nem mesmo quando o desespero do Espanyol descambou para a violência à qual respondemos à altura dentro e fora de campo.
Quando o jogo acabou, desci ao campo e não permiti que nenhum dos nossos atletas se lamentasse ou chorasse a desclassificação, resultado imediato daquele jogo.
Não sei bem por iniciativa de quem, mas nessa tarde iluminada ainda demos a última e derradeira lição nos nossos anfitriões, quando em conjunto, nos dirigimos ao time deles, após a partida para cumprimentá-los.
E aí ganhamos a torcida, que nos aplaudiu de pé. E que sentiu que aqueles pequenos guerreiros eram verdadeiramente valorosos adversários, e não inimigos.
Na verdade, eles foram, para nós, mais do que isso, foram verdadeiros desbravadores, que abriram com sua experiência várias portas para as gerações posteriores que certamente virão.
E que nos deram de prêmio, por acreditarem neles, um jogo para jamais ser esquecido.
Assim, agradeço, primeiramente a Deus, por me proporcionar tão grata oportunidade. Aos pais, por terem nos confiado seus bens mais preciosos. Aos meus parceiros, pelo convite e pela idéia que comprei. A minha esposa pelo incentivo e pelo fato de ter tornado possível a logística de estar fora de casa por tanto tempo. Mas eu queria agradecer, mesmo, a esses meninos.
E o motivo é simples. Pela lição que eles deram a quem quis aprender. Não há o impossível. Não há o inatingível. Viajamos para um país estrangeiro, com uma delegação improvável, de uma estrutura incipiente, para deixarmos para trás 3/4 dos times envolvidos na competição.
O amadurecimento deles, deixou em mim, e acredito que em todos os outros, uma marca indelével de que esse é um grupo vitorioso. Todos eles marcaram suas vidas, com uma história de arrepiar.
E vão poder contar a todos , seus filhos, netos, ainda que fora do futebol, que a união os fêz não caírem para ninguém, não ficarem abaixo de ninguém, não se intimidarem e nunca, mas nunca mesmo, desistirem.
E é disso que eu acho que são feitos os bravos e os heróis. Não os heróis das lendas ou dos contos de fadas. Mas os heróis do dia-a-dia, num país em que sobreviver já é quase uma aventura...
E é dessa matéria rara que são feitos os "nossos" meninos.
E eu pude estar lá para ver, rir com eles, chorar por eles, e sobretudo, aplaudí-los.